ix ocelli
Uma gota a cair na água é, talvez, algo demasiado insignificante para merecer a atenção de alguém, no entanto, o seu som é o resultado de algo bastante notável. No final da sua descida, logo após o momento do impacto, abre-se uma pequena cavidade à superfície, aprisionando uma ínfima porção de ar no seu interior. Numa fração de segundo, esta bolha vibra e sobe, libertando-se à medida que a água retoma o seu espaço.
Pling!
O que ouvimos não é propriamente o som da água, nem sequer o do ar, mas algo gerado pela tensão entre ambos. Por um instante, a gravidade e a força de impulsão encontram-se, criando algo que surge e desaparece quase em simultâneo. O que se segue, este som singular, dá voz a um espaço intermédio, a um fenómeno efémero onde dois elementos se encontram, interferem um com o outro e produzem algo que não pertence plenamente a nenhum deles.
A prática multidisciplinar de Vica Pacheco parece também ressoar em limiares semelhantes. O seu trabalho parte do ponto onde as geografias, os materiais, as histórias e as formas de conhecimento se encontram e se transformam mutuamente, gerando novas formas e sons. Seja colocando cosmologias mesoamericanas ancestrais em contacto com noções contemporâneas de pensamento ecológico, ou recriando antigos instrumentos hidráulicos e transformando as suas vozes através da manipulação digital, as suas obras oscilam entre objeto e instrumento, referência histórica e especulação arqueológica.
O título da exposição reúne dois universos linguísticos: ix, um prefixo Náuatle1 associado ao olho, e ocelli2, do latim, que aqui refere-se às marcas semelhantes a olhos que se encontram nas asas das traças, utilizadas para assustar os predadores ao criar a ilusão de uma criatura maior que os observa. De um lado, um olho biológico que contempla o mundo e produz imagens; do outro, a imagem de um olho que não vê, mas que existe para ser “visto”. Ao juntar uma palavra de origem vernácular com outra proveniente do idioma religioso e científico proveniente do outro lado do oceano, a artista relaciona a visão com um dos impulsos presentes na natureza: o de atrair o olhar, através da cor, da forma e do padrão, para se reproduzir, e a necessidade de desaparecer, através da camuflagem e do engano, para sobreviver.
A exposição toma esta tensão entre atração e evasão, visibilidade e ocultamento, como ponto de partida para criar um conjunto de obras que nunca se fixam totalmente em nenhum destes estados. No piso superior, ix ocelli reúne trabalhos que expandem o universo visual da artista, composto por formas ambíguas situadas algures entre a matéria microscópica e a matéria fluida, que parecem fluir, interagir e transformar-se.
No nível inferior, onde a luminosidade é mais ténue, a sala começa com uma escultura que cria um canal íntimo entre duas pessoas, transmitindo um sussurro de um lado para o outro. A partir deste ponto, um grupo de obras de tonalidades mais escuras sublinha esta ideia de amplificação de sons subtis, ao mesmo tempo que evocam certos impulsos visuais do mundo natural. Na série sistema nectario (2026), encontramos vários exemplos destas dinâmicas: cores vivas que poderiam atrair polinizadores, formas sensuais que remetem para os órgãos reprodutores das plantas, superfícies brilhantes que quase convidam ao toque e formas arredondadas que sugerem os ocelli das traças. Embora algumas destas referências possam atrair o olhar, a identidade das peças permanece ambígua e resistente a uma definição clara, suspensa algures entre a atração e o mistério.
Tal como acontece com os azulejos, estas obras parecem captadas num processo de devir, impulsionadas pelo movimento incessante da água e pelo seu som. Ao contrário das fontes da tradição ocidental, com as suas espetaculares cascatas feitas para entreter, o fluxo nestes trabalhos é mais subtil, comportando-se quase como nascentes ténues ou como corpos que salivam, suam ou vertem lágrimas. Nestas obras, a água não só se move, como transporta o som, desviando o foco do visual para o auditivo, à medida que este se manifesta e é amplificado através das obras.
Na escrita asteca, há uma curiosa semelhança entre os glifos da água e do som: a água era representada por uma forma fluida e ondulante, enquanto o som era representado por um desenho parecido, que podia sair da boca ou de um instrumento. Ambas figurações parecem dar forma a algo que flui e não pode ser contido. Na obra de Pacheco, esta relação entre estes dois elementos torna-se evidente: a água move-se visivelmente pelas esculturas, enquanto o seu som também emerge e percorre essas mesmas formas.
Há vários anos que Pacheco tem vindo a recriar antigas flautas mesoamericanas que utilizam o ar e a água para produzir notas. Na série sistema nectario, porém, esta função musical é menos explícita, preservando-se, em vez disso, uma dimensão sonora mais subtil que emprega os mesmos elementos. Se, nos seus instrumentos hidráulicos, a água circula pelas flautas, movimentando o ar e gerando som, aqui a mesma pode ser vista quase como o próprio instrumento: uma membrana de percussão pontuada por gotas que caem a velocidades ligeiramente diferentes, cada uma vibrando, através das peças, na sua própria e irrepetível tonalidade.
Talvez, se o encontro entre todas as diferentes forças, elementos e narrativas que convergem na obra de Pacheco pudesse produzir um som, ele poderia ser imaginado como algo semelhante ao som gerado pelo encontro da água e do ar: um fugaz e vívido pling!
Mattia Tosti and Orsola Vannocci Bonsi
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1Náuatle é um grupo de línguas indígenas estreitamente relacionadas do centro do México, historicamente faladas pelos astecas e ainda hoje faladas pelas comunidades de todo o país.
2Ocelli são também olhos simples encontrados em muitos insetos. São pequenos órgãos que detetam a intensidade da luz, mas não formam imagens detalhadas.
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Vica Pacheco é uma artista multidisciplinar que mora em Bruxelas, cuja prática abrange a escultura, o som e a performance. Partindo de tecnologias sonoras arcaicas, da cerâmica e de imaginários animistas, o seu trabalho explora as relações entre o som, a matéria, a água, o corpo e formas de vida não humanas. As suas performances e instalações ativam frequentemente instrumentos de cerâmica e recipientes sibilantes através da respiração, da água, do ar e do movimento, criando ambientes sonoros imersivos moldados por processos materiais e pela experimentação acústica.
Estudou na La Esmeralda, na Cidade do México, e concluiu a sua formação na Villa Arson, em Nice, em 2017. O seu trabalho tem sido apresentado internacionalmente em instituições e espaços como o Palais de Tokyo, Paris; MACBA – Museu d’Art Contemporani de Barcelona; Musée d’Art Contemporain de Lyon; Fondazione Elpis, Milão; Public Gallery, Londres; PEANA, Cidade do México; Galerie Nordenhake, Cidade do México; Gaudeamus Festival, Utrecht; Hacer Noche, Oaxaca; Q-O2, Bruxelas; Culturgest, Lisboa; e CTM/transmediale, Berlim.
Fotografia © Photodocumenta