A Galeria Foco tem o prazer de apresentar Zangbeto: The Night Hunters, uma exposição individual de Pauline Guerrier.
Inauguração a 19 de março, às 18h.
A exposição revela os resultados da investigação realizada pela artista no Benim em 2024, durante a sua segunda residência artística na Fondation Zinsou.
Profundamente envolvida com a cultura beninense e as suas tradições espirituais, Pauline Guerrier imergiu nos rituais e figuras do Vodoun, concentrando-se em particular nos Zangbeto, guardiões da noite, e nos Egungun, ancestrais que regressam ao mundo dos vivos. Estas figuras místicas, protetoras da comunidade e mediadoras entre o visível e o invisível, alimentam uma reflexão plástica e simbólica no centro da sua prática artística. Através de instalações compostas por tecidos tingidos pela artista, recortados, recompostos e rematerializados, Pauline Guerrier dá origem a silhuetas vibrantes e coloridas que funcionam como reinterpretações contemporâneas destes guardiões espirituais.
Este novo conjunto de obras inscreve-se na continuidade da sua investigação artística internacional, iniciada nomeadamente durante a sua residência na Índia e apresentada em Bruxelas na exposição The Guardians. Ao longo das suas deslocações, do Benim à Índia, passando pela América Latina e pela Europa, a artista observa, recolhe e absorve formas, gestos, cores e ritmos provenientes de cerimónias ancestrais. A partir dessas experiências, extrai uma mitologia pessoal, feita de memórias entrelaçadas e de tradições vivas, que traduz numa linguagem visual singular.
Combinando escultura têxtil, instalação, marchetaria em palha, desenho e presença ritual, as obras apresentadas na Galeria Foco prolongam esta exploração de figuras protetoras universais. No limiar entre o dia e a noite, entre a realidade e a imaginação, os Zangbeto de Pauline Guerrier surgem como entidades híbridas, enraizadas numa espiritualidade beninense ancestral e reinventadas pelo gesto contemporâneo da artista.
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Observar Pauline Guerrier a trabalhar tem algo de desconcertante. Tudo parece simples. Evidente. A cada gesto, as intuições parecem confirmar-se sem esforço.
Há momentos na vida que são como limiares. Instantes em que aquilo que caminhava nas dobras subterrâneas acaba por vir à superfície. A primeira viagem de Pauline Guerrier ao Benim é um deles. Um mês de residência transformado em nove meses de eclosão. Um movimento de dentro para fora. Afastar-se. No desconhecido, em direção ao distante. Afastar-se de uma família de artistas, de si própria e do seu quotidiano, mas também do ateliê — espaço de criação predefinido.
Desde o início, é isso que a move: as matérias. A jovem artista testa a espessura do betão fresco, a resistência do metal, a flexibilidade dos polietilenos. Explora os padrões e as cores. A pesquisa plástica é marcante. Mas, no Benim, algo se abre. Um deslocamento interior. Pauline Guerrier compreende que o ateliê deixa de ser um lugar fixo para se tornar um estado, uma disponibilidade. Não serve de nada apressar a natureza. Observar torna-se o maior dos recursos.
As histórias e os objetos recolhidos transformam-se num viveiro de texturas e formas. Abrandar e observar. A artista dá a si própria o tempo do nada. O tempo dos seus desejos, do ciclo do dia, do calor, da solidão, da noite que cai cedo demais e traz consigo o seu cortejo de fantasmas. Constrói a sua fortaleza invisível, aquela que nunca a abandonará e que passará a transportar consigo para todo o lado. Um mundo íntimo alimentado por uma curiosidade voraz por aquilo que ainda há para descobrir: os elementos, os saberes, os relatos. No despojamento, o tédio não tem lugar. A relação de forças com a matéria torna-se uma dança. Já não se trata de a combater, mas de a compreender, de a desviar com delicadeza, de escutar os seus segredos.
No Benim, país do caju e do algodão, Pauline Guerrier tinge a percal com bissap, gengibre, curcuma e índigo. No mercado ou na floresta, ao recolher os ingredientes, os encontros tornam-se determinantes: é preciso deixar-se guiar. Fundir-se no ritmo. Depois, conhecer o têxtil e as suas texturas, montar e recomeçar até encontrar a paleta certa.
A artista compreende que se pode fazer muito apenas com aquilo que existe. Um objeto encontrado, um material desconhecido, um ritual. Surge um caminho entre a natureza, a mão e os deuses. A artista olha o mundo como um campo infinito de experimentação, onde tudo se torna sensível. O inanimado atravessado por um impulso vital: é a descoberta do animismo.
No coração deste processo, o desenho permanece uma linguagem primordial. É através do traço que Pauline Guerrier apreende o mundo. Nos seus cadernos de viagem, regista imagens, lugares, rostos. Desde sempre, desenhar é, para ela, uma forma de memorizar a vida. Pouco a pouco, as presenças densificam-se e deslocam-se de um meio para outro. Aquilo que era um caderno de notas torna-se um conjunto de esboços a partir do qual cria as suas obras. Um alfabeto ao qual dá vida. Uma língua para encontrar o outro. O Benim abriu o caminho. Da ideia ao objeto, por sua vez habitado, levado pela mão, a passagem é direta. Sem rutura, sem demonstração.
Pauline Guerrier sabe fazer muito com pouco porque nunca opõe o gesto ao pensamento. Prossegue aquilo que inicia. Enraizada. E é talvez aí que reside a justeza do seu trabalho: nessa fluidez rara, onde tudo parece acontecer sem esforço, mesmo quando tudo está em movimento.
Eulalie Juster